quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Balada de uma mulher só

No quarto. Só.
Janelas são grades espaçadas, espaços são cantos que não me encontro.
Entretanto, conto uma versão de minha história a outro ser, antes tão cheio de importância, antes tão cheio de mim e eu de si.
Masmorras estão nas brechas de luz que não vejo com clareza. Rezo, pois minha fé não tem nome nem um Deus. É carbono ou titânio, ou talvez, um lápis onde possa escrever a minha nova cena.
Não diminua seu encontro. Encontrarei, mesmo que seja numa rua deserta a minha imagem refletida em um grande espelho, mostrando para mim quão pequena sou e tão grande posso ser capaz de ser.
Bebo o último gole d’água do copo, essa é a minha receita. Entorpecer de passado, presa numa dor futuro. Tão abstrata que não sei se existe. Você entende o que é para uma mulher ser apenas invisível? Entende como é para uma mulher amar uma outra mulher?
Acho que preciso acreditar mais em algo. Em algum caminho, destino, qualquer merda dessas que seja, que me oriente a entender o propósito de tamanha dor e julgamento.
Você sabe o que é ser uma mulher? Sabe o que é ter um coração cuja a alma toca e nos faz sentir tudo em uma potência tão elevada?
Talvez se fosse um grito em silencio, uma vitória em que não se celebre, as coisas ganhariam nova textura e um ritmo em que não denunciaria a minha covardia. O meu impulso. Minha vontade de errar.
Volto a sorrir ao seu sinal, mas é tudo tão momentâneo. O devaneio é distante, pois distante é o estado em que me desencontro, no encontro onde não há apenas palavras e gestos. Há o que não desejo sentir.
Isso é ser mulher. Na corda bamba dos sentidos que transcendem o corpo. O corpo é um guia as multidões. Não, não é. Não sou sua guia. Ergo o cenho, pois estou viva e já cai muito. Já deixei o corpo ser dos olhares, hoje nego a ser. Tenho minha carne, essa é a minha carne! Você não entende?
Você sabe como é ser uma mulher? O que passamos para afirmamos, exaltarmos o que nos faz fortes e fracas, sem medo da fraqueza e sem se importar com tamanha força?
Quem é você? Mas que merda de mulher é essa? Eu me indaguei olhando para o meu reflexo. Que compaixão desenfreada. Que pena insolente.
Não existe mais dor. Falo isso pelo que virá. Liberte-se. Em um determinado momento, não hoje nem amanhã, vai ser fácil. O que doía se consome por si só. Nessa balada de uma mulher só, a gente se acostuma com ausência. Aprende a saber. Também acho que é uma pena.
Foi como tinha que ser, não dá para pensar de outra maneira. “Já estava escrito”, ela me disse. E eu quase que instantaneamente respondi “Muita coisa já estava escrito. O problema é entender a caligrafia”.

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